terça-feira, 19 de maio de 2015

"Yemanjá foi quem mandou "

Conduzida, fui ter com as águas de Mãe Yemanjá e quando seu filho encontrei, logo a calma veio e junto uma fala pura, de sabedoria e consciência.
A viajem seguiu nada tranquila, horas de inquietude e preparo para o que viria, falamos mais um pouco, na verdade eu o ouvia, e percebia em cada reflexo da luz em seu rosto,  uma face diferente se sobrepondo, era um rosto conhecido, de um outro filho amado que sacrificou sua vida por amor à humanidade.

Chegamos e na espera uma conversa tranquila e profunda, algumas perguntas e muitas confirmações, estava ali completamente invisível aos olhos de todos, apenas cumprindo meu papel.
O dia transcorreu na recepção a ele, na organização de tudo e eu silenciosamente me preocupava por ele não comer e não dormir. Todos em volta como abelhas no mel, com toda sua doação ele falava e falava, contava histórias nesse plano e nos outros percebendo tudo que iria acontecer.
Um amigo guardião se prostrou ao seu lado e como um encontro de muitas vidas ficou todo o tempo junto. Ele dava as diretrizes do ritual, “o lava pés”, como ficariam as cadeiras ... Um conflito entre os anjos musicais ele acalmava com sua autoridade divina.
Enfim, para minha tranquilidade ele foi descansar, deitou se afastado de tudo e dormiu, guardei seu sono e em silêncio o rezo havia começado.
O tempo parecia eterno naquela espera por  ver rostos conhecidos, esperando a tribo chegar, os guerreiros e guerreiras, logo um filho precioso chega cantando um rezo com alegria e com ele toda aldeia, os caboclos iam se colocando em volta do círculo para proteger. Pessoas chegavam, mais e mais, muitas crianças, e também ela, brilhando e ancorando a força feminina guerreira das índias e caboclas ... Agora faltava pouco.

Depois de descansado e preparado, chegou o momento de iniciar, um breve discurso do dono da casa, e ele inicia com as orações matrizes, “Pai Nosso e Ave Maria” ...  Fala do propósito coletivo a ser trabalhado, ensina sobre a diferença entre rogar, rezar e decretar e pede que cada um faça seu rezo pessoal. 
Invoca todas as proteções, todas egregoras de luz e amor, reverencia a Mãe Divina, avisa que estamos protegidos e tudo que vir a tona é de cada um a ser trabalhado.
Ele serve a Rainha a todas as pessoas numa única fila, sem distinção de gêneros, afinal o propósito é a unidade, e aos poucos cada pessoa diante dele consagra aquele vinho precioso e especialmente doce.
Abrindo a porta da Terra, a canção soa, reverenciando a Mãe, amada Pachamama, e todas que esperavam por esse momento para cantar e dançar e expressar sua Divindade começou a sentir a força do rezo.
Infelizmente o "expressar" era um tanto limitado pelas “regras” do local, e sempre que tentavam  especialmente as muheres eram retiradas. 
Ancorando o feminino sagrado me mantive onde sabia que era meu lugar e por nada saí, travando uma luta grande contra repressão patriarcal, dancei o quanto pude e logo a sabedoria de uma anciã tomou conta do meu corpo, pedindo para me sentar próxima ao fogo.

Venho a porta do vento, trazendo um furacão e ponto tudo a baixo, Iansã derrubando tudo que não condizia com a Ordem Divina, seres iluminados desciam de suas naves e se posicionavam para cuidar e curar, guerreiros não deixando ninguém sair e nada entrar.
Uma guerra espiritual travada entre os velhos padrões, conceitos e hierarquias desnecessárias e a nova era, a unidade e o amor.
Os anjos foram convidados a tocar sua canção leve para acalmar um pouco, e Ele caminhava entre as pessoas percebendo e aproveitando o céu a se abrir diante dos seus olhos.
Em unidade o Clã ficou quando a energia da Mãe Divina os tocou enquanto eles tocavam.
Pausa para mais uma consagração, e agora o doce da rainha não era sentido e sim um fel desceu pela minha garganta, tamanha energia contraria emanada.

Abre se a porta do fogo, e depois de tudo abaixo era hora de purificar no fogo, deixar tudo queimar, a índia velha, agora estava toda em meu ser, apenas olhando para o fogo e tocando seu chocalho, algumas vezes olhava para o lado e via as Flores bailando e se sentia feliz, por vê las celebrando.
Ela olhava firme para seu filho amado e trazia toda a força em suas raízes e emanava para ele, dizendo para cantar, para aguentar ... Ele tremia inteiro no rezo canto e tudo a flamejar em volta.
Através de seus olhos pude ver toda sua missão, pude ver o quanto amado e protegido o é, o amor que sentia completamente maternal era entendido nesse momento. Via todo ao redor dele com uma luz amarela como se fosse o próprio sol a emanar luz em toda aquela escuridão, ela rezava em volta dele com o chocalho, com folhas de arruda e ele buscava força nos olhos dela.
A Mãe Divina em forma de Pachamama, estava ali aguentando tudo, ancorando para que todos pudessem trabalhar, equipes espirituais resgatando, limpando, curando e protegendo.
O tempo perdeu o sentido e parecia eterno aquele momento, lapsos de presença era sentida por mim, dores no estomago e a limpeza que precisava ser feita, mas apenas na hora certa. 
Ouvia a Mãe Divina dizendo para aguentar mais um pouco, que ele precisava cantar  - Meu filho precisa cantar!  dizia ela ...  – Ele precisava cantar até o Sol nascer!
Entre uma canção e outra Ele falava palavras de consciência superior, os recados para todos, até para ele mesmo e tudo seguia ... Sofrido de ancorar, mais uma força sobre humana me fazia sustentar ele em pé com a força dela.

A limpeza veio e a porta da água também, então Mãe Yemanjá trouxa as águas, o mar subiu a montanha e a tudo inundou,  o “lava pés” começou  ...
Sentindo ela em meu corpo, mal conseguia andar, curvada, com o rosto envelhecido, andei por entre as pessoas com cuidado e logo voltei para perto fogo, antes, os pés da anciâ nos meus foi limpo por uma querida filha.
E nas águas o choro veio, choro de amor e de dor para que o propósito seja mantido, para que Ele cumpra o que veio fazer aqui, com uma força inabalável Ela cantava quando ele precisava de força, batia palma e mantinha acesa a luz em volta dele.

“Nesse instante, Ela presenteou  me por entregar em doação para que ela estivesse presente, mostrando a missão do meu próprio filho, então o choro agora foi meu, por ver tamanha beleza de caminho traçado para meu amado.”

Ela se voltou para ele novamente e ali permaneceu... Contra vontade da Mãe Divina, era preciso encerrar o canto, depois de tanta luta e em êxtase ele entrou e abraçou à todos, celebrou, amou e foi amado.

O rezo continuou até o dia raiar e ela esperou junto dele, abençoando mais uma vez toda a sua existência.

Asha - 16 de Maio de 2015 em Porto União










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